segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os Contos de Biodak - Destroços e Retalhos - Parte 1



Após a fuga dos pequenos das Colinas Frias, o lugar encontrado por eles, e transformado em seu novo lar, foi a Floresta Dart-Mor. Por algum motivo os seres da Torre não ousavam enfrentar as gigantescas árvores que rondavam as Colinas. Por cerca de duzentos anos os pequenos fizeram das árvores sua nova casa, para depois migrarem à Planície Roxa e, finalmente, estabelecerem-se em Feenos, protegidos pelo Paredão de Akina.

Mas antes de os pequeninos abandonarem o território seguro de Dart-Mor, um velho contador de histórias resolveu voltar às Colinas Frias. Lugar habitado pelas mais frias e cruéis criaturas, libertadas da velha e misteriosa Torre.


Agda batia a colher de bronze contra o prato de madeira. Encostou o cotovelo sobre a mesa e repousou a cabeça sobre a mão esquerda. Começou a remexer seus legumes.

- Pare de brincar com a comida, Agda! – vociferou Tami, tentando mastigar a hortaliça que o marido havia trazido.
- Mas, mãe... – resmungou a garota, sem ânimo. – Isso tem gosto de terra!
- Bem, se você não tivesse experimentado terra, talvez gostasse um pouco mais das verduras que seu pai traz.
- Não a force, Tami... – disse Yann que não havia dito uma palavra desde que chegara da colheita. – Nem eu consigo engolir esse capim.

Ele largou o talher no prato e saiu da mesa. Passou pela porta da sala e ficou na sacada, observando as outras casas. Eram todas feitas de bambu, sustentadas pelas várias sequóias da floresta Dart-Mor. Era noite e a maioria das luzes estava ligada. Porém uma casa em especial permanecia sob total escuridão. Yann encostou os braços no parapeito e respirou o ar puro da floresta.

Tami saiu da sala e ficou observando as casas ao lado do marido. Sabia bem o que o incomodava.
- Ele insiste em voltar? – falou após um longo silêncio.

Yann abaixou a cabeça e deixou os cabelos balançarem à brisa que batia na copa da árvore.

- Ainda não acredito que ele veio de lá... – disse, observando o aparente abismo que se estendia abaixo. – Agora quer voltar. Diz que tem de buscar a mãe e que é tudo culpa dele.
- Ninguém sabe o que acordou a Torre! – falou Tami. – Mesmo que ele diga que foram três garotos, como alguém poderia saber? E se ele tem uma mãe lá, já deve estar morta. Não tem como ter sobrevivido todo esse tempo. Me dá arrepios só de pensar no que aquilo se tornou.
- Ele parece nem sentir – disse Yann, curvando a cabeça em direção à uma casa logo a frente. Da porta da frente saía um velho, de mochila nas costas e portando um cajado. Ele começou a descer a longa escadaria, mas parou por um momento. Virou-se para trás e encarou Yann.
- Não faça nada – sussurrou Tami. – Já tentamos tudo o que pudemos. Se ele quer se sacrificar, deixe-o ir.
- Ele não vai conseguir sair de lá. Não agora.

O velho tornou a se virar e continuou a descer os degraus. Tami e Yann o observaram sumir na escuridão lá embaixo. Ela fixou o olhar nas copas das árvores, logo acima.

- Resta esperar que as Colinas Frias não o deixem entrar.


Naquele ponto da floresta era possível sentir a presença da Torre. Ela estava a quilômetros de distância, mas emanava um mal tão grande como nunca poderia se imaginar. Faltava pouco para o velho pequenino alcançar a orla da Floresta Dart-Mor. Por anos aquelas árvores serviram de abrigo contra as trevas que assolaram as Colinas Frias. O velho já sentia calafrios só de lembrar o terror que voltaria a enfrentar. Ele enxugou o suor de sua face queimada e continuou a viagem.

Enquanto caminhava pela estrada proibida, as árvores mudavam de aparência. De um marrom vivo passavam a um cinza disforme. Não havia mais brisa, não havia mais o costumeiro canto dos pássaros. O velho tinha chegado à fronteira entre Dart-Mor e as Colinas Frias.

Há tempos ele não via um céu tão escuro. Pelo visto os raios de sol nunca mais alcançaram os descampados das colinas. Um cheiro pútrido invadiu as narinas do pequeno, lembrando-o dos terríveis acontecimentos que nunca saíram de seus sonhos. Sentiu vontade de vomitar, queria desistir daquela viagem suicida, mas não poderia viver por mais tempo com aquela culpa.

Ele sabia que quando deixasse a floresta, tudo iria mudar. Quem olhasse de longe pensaria que as Colinas Frias tinham sido acometidas por uma sombra, e nada mais. Enorme engano. Ao passar pelo último galho morto de Dart-Mor, uma escuridão engoliu o pequenino. Ele sentia tudo queimar a sua volta, num calor quase insuportável. Sem pensar duas vezes, o velho continuou andando, embrenhando pelo inferno, sem mais enxergar.

Alcy Filho


Imagem: Oilpntr58

Menestréis - 1 e 2




A Fuga

   Correu o máximo que podia, havia sido condenado à guilhotina, por um crime que não podia evitar, a arte. Estava suando frio, o coração a saltar do peito, sem fôlego, teve que parar, sabia que estava na praia, e precisava encontrar as docas. Foi seguindo o cheiro de madeira.

Quando um barco encontrar,
Poderei me salvar deste ínfimo infortúnio,
A rimas vulgares sujeito.
Quem já partiu foi embora,
Quem foi embora voltará.

   O Menestrel se frustrou por estar com tanto medo e não poder esculpir palavras melhores. Percebeu que estava dentro de um barco. Ele sabia que não havia ninguém ali, tirou um canivete do bolso e cortou as cordas que prendiam o barco à praia. Logo começou a ouvir tambores e gritos selvagens, mas ainda distantes. Tinha que fugir daquela ilha o mais rápido possível.

   O pequeno barco ia lentamente, as ondas estavam calmas para uma noite escura como aquela. O Menestrel tateou tudo o que havia ali, como facas, redes de pesca, papéis sobre uma mesinha, e um baú. Dentro do baú havia vários frascos pequenos, de uma bebida com cheiro de flores, mas o Menestrel ainda não sabia o que era aquela bebida, e não experimentou. Pegou um frasquinho e guardou no bolso. Ele sabia que não seria perseguido agora, estava no mar e não mais seria um infortúnio. Ouviu gritos na praia, lanças e pedras chegaram perto. A ilha ficava cada vez mais distante e ele desmaiou de cansaço.
~

Uma personagem não é mencionada

   Com sua corja, o rei Baleth oprimia o povo com violência. Quando uma família sacrificava um carneiro, colhia trigo, ou usava o moinho, mais da metade do que era produzido devia ser entregue no Palácio do rei. O povo de Árane se sentia escravizado e estava cansado desses enormes tributos e serviços que eram obrigados a prestar.

   Árane era um país, mas era uma única e grande vila. Havia centenas de casinhas simples e pobres de madeira e barro, entre ruas de terra pisoteada. Chovia quase todas as noites, e os dias eram ensolarados. Só o Palácio era luxuoso, e todos eram proibidos de entrar lá sem autorização dos guardiões, que eram vigias e capangas do rei.

   Os áranes eram muito parecidos, pele queimada do sol, cabelos e olhos escuros, respeitosos e honestos, cada família preservava valores distintos. Trabalhavam muito, e por falta de tempo para ensinar os jovens, só os mais velhos ainda sabiam ler e escrever. Às vezes, todos se reuniam no Campo, que ficava no centro da vila, e lá era acesa uma grande fogueira, e os filhos dançavam enquanto os pais e avós cantavam sobre Outrora, uma época em que havia felicidade e vitalidade em Árane, e não amargura e cansaço.

   Calisto, um tecelão, era preocupado, talvez mais do que todos, com a situação humilhante em que se encontravam, subordinados a Baleth. Durante meses, Calisto estudou uma possibilidade de se reunir com o povo em segredo, e essa hora havia chegado, sendo que dia e noite, até nos encontros no Campo, eles eram vigiados pelos guardiões do rei.

   Todos foram cautelosamente avisados sobre a reunião, que aconteceria na madrugada em que vinte dos guardiões participariam de um jantar com o rei Baleth, e os outros quarenta provavelmente comeriam muito e cairiam no sono, como havia suposto Calisto, com base em suas observações.

   No horário combinado, todos foram em silêncio e no escuro para a casa de Calisto, e nenhum guardião percebeu as pessoas nas ruas, andando como em uma procissão. O povo, ao chegar, foi se acomodando como pôde, porque na casa de Calisto, mesmo com muito espaço, não havia muitos bancos e cadeiras, mais da metade das pessoas ficaram do lado de fora, mas de forma com que pudessem participar da reunião. Ficaram em casa as crianças e os muito jovens.

   - Agora podemos conversar e tentar encontrar uma solução para Árane. Nossa última tentativa de destruir Baleth, no ano passado, foi uma decepção, disse Calisto.

   O que foi essa decepção, em outra ocasião será contada.

   - Vocês sabem que ainda há uma esperança, e talvez seja impossível, mas é o que nos resta.

   Continuou Calisto, dizendo o que todos queriam ouvir.

   - Nós precisamos da ajuda de Tílitris!, Calisto estava em cima de uma mesa, e as mulheres se escondiam atrás de seus maridos, com os olhos arregalados. Todos sabiam o que aquilo significava.

   Tílitris era um país ao Leste, e em Outrora, mantinha boas relações com Árane, mas agora estavam isolados um do outro. Baleth entrou no poder de Árane e mudou rapidamente o sistema político, o transformando em um reino opressor. Em Tílitris, ainda haveria respeito e igualdade, e Feltris como soberano de uma nação que sempre foi culturalmente desenvolvida.

   Os áranes acreditavam que Feltris não recusaria um pedido de socorro, para tirar o Baleth do poder. À medida que Calisto falava, a esperança iluminava os olhares daquele povo.

   - Feltris já foi nosso amigo, se ele souber da situação em Árane, ficará do nosso lado, completou Calisto.

   Eritar, um ancião, se levantou para falar.

   - Não sabemos da situação de Tílitris nos dias de hoje, e eles não sabem que fomos escravizados por Baleth. Mas mesmo que possamos contar com o apoio de Tílitris, como poderemos nos comunicar com eles? É impossível passar pelo Portão de Evonuque, o Mandingueiro Búfalo.

   Após Eritar, todos começaram a falar ao mesmo tempo, mas todos a favor de mandarem alguém para Tílitris. Calisto chamou a atenção.

   - Alguém precisa tentar passar pelo Portão de Evonuque, é a única forma de se chegar a Tílitris, não há outro caminho. Difícil será encontrar alguém para ir até lá.

   Cinco homens, pais de família, se voluntariaram para ir. Calisto tomou a palavra novamente.

   - Todos nós agradecemos a coragem de vocês, mas temos que ser discretos, para que ninguém do Palácio perceba o que estamos planejando. O enviado a esta missão deve ser alguém que não faça falta, a pessoa mais insignificante aos olhos do rei.

   Liriar, filha de Eritar, disse:

   - Com todo o respeito, mas quem poderia ser essa pessoa invisível?

   Todos olharam uns para os outros, esperando que alguém se pronunciasse, mas os áranes eram muito orgulhosos, e, apesar das humilhações do dia-a-dia, tentavam manter sua dignidade. Ninguém queria ser considerado insignificante e sem importância.
~

Daniela Ortega

domingo, 22 de novembro de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte VII


Uma noite de medos e gigantes nas montanhas...


De acordo com o mapa que Telárius me entregara, aquele me parecia ser o Rio Cinzento, logo passaria por uma antiga cidade portuária chamada Tharbard. Não muito povoada naqueles tempos. Minha estadia fora rápida, um banho para me ajudar com o vinho da noite anterior. Até tentei pescar alguns peixes que ficavam debaixo da grande ponte, mas sem sucesso... Improvisei uma vara de pesca, péssima idéia, no primeiro peixe ela se quebrou, eu quase fui arrastado para debaixo da ponte.

Achei melhor e mais seguro comer algumas frutas, elas não se mexiam e nem precisavam ser pescadas. Sentei ao pé de uma árvore para me deliciar com algumas frutas, escutei um barulho, quando olhei para o lado lá estava Narubb. Um sentimento de alegria me tomou naquele momento. Já não estava mais tão sozinho, ela tinha um pequeno papel em uma de suas garras. Era uma mensagem de Telárius; “Balur, tome cuidado ao seguir a Velha Estrada do Sul, existem movimentações estranhas por lá, parece que houve ataques de orcs aos Terrapardenses”.

Era tudo o que eu não precisava. Eu poderia seguir um pequeno rio que corria para o leste até as montanhas sombrias, mas Telárius havia me avisado para nunca tentar atravessar aquelas montanhas. Mas de acordo com o que Telárius me mandara em sua mensagem, de qualquer forma poderia encontrar orcs pelo caminho, nas montanhas eu teria mais chance de escapar, então, segui para as montanhas, o que foi um grande erro...

Logo que li o recado de Telárius, Narubb partiu novamente, mas antes coloquei um recado respondendo à Telárius, dizendo que tinha recebido sua mensagem, mas não mencionei o desvio até as montanhas.

Segui por quatorze dias aquele riacho até bem próximo das montanhas. Narubb não havia aparecido, e eu começava a ficar preocupado. Viajei avistando grandes montanhas no horizonte, ventos fortes vinham de lá, era frio e causava medo. Na ultima noite antes de alcançar as montanhas, acampei próximo a uma grande rocha que se erguia solitária, o terreno era duro e cheio de pequenas pedras, nada comparado com as gramas verdinhas de outros dias ou as confortáveis camas de Bree, mas este era meu caminho e teria que abandonar alguns confortos.

O som dos ventos eram como uivos de lobos, pedras pareciam despencar das montanhas e quando batiam no chão faziam um grande barulho. Foi quando me lembrei das histórias sobre os gigantes que Bilbo viu em sua aventura com Gandalf. Os gigantes ficavam do outro lado do vale, lá embaixo as pedras se despedaçavam e faziam um barulho ensurdecedor. Era uma espécie de jogo, eles jogavam as pedras uns sobre os outros, não consegui vê-los naquela noite, mas dormi ouvindo os grandes estrondos.

Continua...

Arthur Damaso

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte VI


“Até breve Telárius!”...

Quando o cachimbo já havia se apagado, surgiu uma leve brisa, e com ela Telárius também apareceu de um lugar que eu até hoje desconheço. Foi engraçado, mas eu o achava um pouco estranho, desde a primeira vez que o vi em Bree. Ele me deu algumas instruções, me entregara um mapa, me mostrou o caminho mais seguro e me disse; “Nunca tente atravessar as Montanhas Sombrias, mesmo que isso signifique encurtar a viagem, há muito mais que pedras naquele lugar!”... Nunca tinha estado naquelas montanhas, não sabia de seus perigos, apenas histórias e canções antigas, mas na dúvida, escute alguém que já tenha visto outras terras e fumado mais cachimbos.

Mas o interessante ainda estava por vir, antes de partir, Telárius sugeriu que Narubb fosse comigo para a viagem, não foi uma idéia agradável, ao menos naquele momento não parecia. Bem, ela tinha demonstrado certa afeição à minha pessoa, concordei com a idéia, no fim era uma companhia, não estaria sozinho o tempo todo.

Eu já estava de saída, quando escutei os passos rápidos de Telárius entrarem em sua e casa, e depois me chamando com certa urgência... ”Já ia me esquecendo! Quero que entregue esta carta a um velho amigo.”... Eu fiquei sem entender, mas ele nem me dissera quem era, até perguntei, ele respondera; “Não se preocupe, você o encontrará, apenas siga o caminho que já planejara fazer”. Bom, tentei não me preocupar com isso, guardei a carta comigo e me despedi daquele velho homem chamado Telárius. “Até breve... eu espero”.

Narubb ficara um tempo com ele ainda. Fui seguindo a estrada, as Montanhas Sombrias eram como uma grande parede de pedra, mas estavam distantes, faziam parte de um imenso horizonte, tomei o caminho verde e segui aquela estrada que na Quarta Era se tornara mais freqüentada, cheia de viajantes, comerciantes e ladrões, mas estes últimos eu não fazia questão de encontrar. Havia rastro de uma carroça, se tivesse sorte alcançaria e até pediria uma ajuda, não seria ruim, economizaria a sola dos pés. Segui com a minha viagem, Narubb ainda não havia me alcançado, nem a tinha visto no céu.

Algumas milhas a frente avistei uma pequena mata, o sol estava se pondo, era um lugar perfeito para acampar, descansar e comer é claro. Havia trazido alguns pães da casa de Telárius, uma garrafa de vinho. Fiz uma fogueira, fiquei pensando onde Narubb poderia estar, por fim, fui tomar meu vinho, tomei um pouco além da conta, já distante do bom juízo decidi subir em uma árvore. Depois de algumas quedas consegui subir, mal havia subido, olhei em um galho ao lado, Narubb estava lá, me olhando com aqueles olhos rutilantes, me assustei e cai de cima da árvore novamente, só que dessa vez acabei ficando lá embaixo, meus olhos foram fechando... Dormi com os pés pra cima e minha cabeça dentro de uma raiz.

Não fora as melhores das noites, com certeza não fora. Minhas costas doíam e minha cabeça também. Lembrei-me de pouca coisa, só que Narubb estava em um galho e então... Esqueci! Mas onde estava ela agora? Fiquei pensando se aquilo tudo fora um sonho, mas meu corpo respondia de forma imediata que não fora um simples sonho. A garrafa de vinho estava vazia, alguns pães no chão, era hora de limpar tudo e partir, o brilho do sol me incomodava muito, mas tinha que continuar.

Depois daquele incidente noturno procurei andar pelas poucas sombras existentes, pelo mapa que eu possuía, deveria existir um rio não muito longe dali, talvez um pouco de água me ajudasse.

Continua...

Arthur Damaso

domingo, 27 de setembro de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte V


Entre as Colinas Dos Túmulos e a Floresta Velha...

Logo que subi na carroça, perguntei o nome daquele velho homem. Ele me respondera: “Me chamo Telárius, habitante da Floresta Velha, um errante dos ermos nessa época.” Não sabia que alguém tivesse coragem de morar lá, a não ser Tom Bombadil, mas eu nunca o tinha visto lá, mas as histórias eram contadas e lendas proferidas por viajantes e outros hobbits de colinas distantes. Mas ao meu lado estava uma pessoa que dizia morar lá, isso era respeitável, depois de saber disso fiquei tranqüilo, nem mesmo um exército de orcs amedrontaria aquele homem.

Fomos conversando enquanto pegávamos o caminho verde em direção ao sul. De acordo com Telárius, ele morava em uma pequena clareira entre as Colinas dos Túmulos e a Floresta Velha. Morar na Floresta Velha já era um problema, mas morar entre estes dois lugares era como pular no grande Brandevin, um suicídio.

A viagem estava bastante agradável, por algum motivo, Telárius tinha erva de fumo, aquela maravilhosa erva da Quarta-Sul, o velho Toby, até a fumaça era diferente, para ficar melhor, só faltava uma boa caneca de vinho da Dragão Verde, mas isso era pedir demais. Fomos conversando e a viagem se tornara tão breve, nem havia percebido que anoitecera. Eu não havia prestado atenção em uma coisa, teria que passar a noite na casa de Telárius, ele me convidara, não pude recusar.

Esta fora a noite mais longa de toda minha vida. Chegamos em uma casa feita de pedra, era muito antiga, mas aconchegante, possuía uma lareira pequena, havia um caldeirão para o preparo de refeições, mas o pior ainda estava por vir, olhei para uma única janela que havia, percebi que uma enorme coruja azul estava parada lá, me escondi atrás de Telárius. Ele riu muito, me lembro dele chamando o animal; “Narubb”... E depois me dizendo; “É apenas uma coruja, claro, não uma coruja qualquer, venha conhecê-la.”... Não estava disposto a aceitar o convite, mas comecei a olhar para ela, parecia inofensiva, era um animal realmente muito diferente, começando pelo tamanho e pela cor. Eu nem imaginava, mas em breve eu e Narubb teríamos algumas aventuras juntos.

Depois do susto, Telárius arrumou um lugar para que eu passasse a noite, somente alguns lençóis ao lado da lareira, não tinha o conforto da minha cama, mas não podia reclamar. O vento soprava um pouco forte naquela noite, alguns galhos insistiam em cair no teto, outros batendo na janela, eu começava a lembrar das lendas que me contavam quando era mais jovem, era como se o Velho Salgueiro Homem estivesse lá fora, esperando que eu saísse para fumar meu cachimbo, mas não seria fácil assim, permaneci bem quieto, esperando que o sol surgisse, levando a noite e meus medos embora.

Ao amanhecer olhei para os lados e percebi que Telárius não estava mais em sua cama, avistei somente Narubb, parada na janela, me observando. Levantei-me, mas procurei não ficar olhando muito pra ela, sai para ver se encontrava Telárius.

Algumas frutas na mesa me serviram de desjejum, o primeiro desjejum é claro. Depois disso acendi meu velho cachimbo e observei a floresta esperando que Telárius voltasse, isto é, se ele tivesse mesmo ido para algum lugar. O dia nascera belíssimo, partiria para uma viagem mais ao sul, sob o olhar de um magnífico dia.

Continua...

Arthur Damaso

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Os Contos de Biodak - Três desejos do Oásis



O modo como agia. Seu caminhar e seus cabelos. De olhos inocentes à certeza de que muito havia se perdido. O rio e o dragão levaram a beleza da infância. Tudo mudara. Ao menos assim pensava Yana.

Enquanto saia do Rio Cran, ia tentando se familiarizar com o lugar. Nunca havia conhecido o deserto. Sentia os pés afundando no terreno árido. Os olhos não poderiam mostrar a imensidão de areia, intimista e contrastante ao céu azul. Mesmo cega diante a paisagem, Yana conseguia sentir terror naquele lugar.

Aos poucos a menina foi avançando pelo deserto. Implorava aos céus por chuva, que nunca viria. Tateava o nada em busca de abrigo. Era muito diferente da floresta. Ela conhecia cada galho e cada trilha. Mas no deserto sua cegueira chegava ao ápice. Só lhe restava confiar nos desatentos pés, que continuavam a levá-la para o leste.


Ao avistar o Oásis, Hiugo apertou com força o cajado no peito e desapareceu do deserto.
Quando reapareceu em meio à densa floresta, lembrou do aviso do gólem das Pirâmides de Ferro. “Não se demore nas árvores”. Até a seiva que corria pelas plantas daquele lugar estava amaldiçoada.

O mago Hiugo abaixou o capuz e se apressou a atravessar a mata espessa. Mas quanto mais avançava, mais densa ficava a floresta. Em certos pontos os galhos pareciam estar alocados em forma de teia. Com o cajado em punho, Hiugo proferiu um encantamento que murchou os troncos e galhos a sua volta.

Enquanto caminhava, a floresta ia abrindo caminho, numa sofrida redenção. O mago não parava de pensar na criatura que iria encontrar. Seria verdade tudo aquilo que as inscrições diziam? Esta era a única chance de seu povo sair de Biodak.

Hiugo estava decidido a encontrar o último dragão de Amdu. E diante de seu objetivo ele não percebia que a floresta ia aprisionando-o ao Oásis.


Ghiardo continuava a se guiar pelo estranho odor. Não podia enxergar a destruição que causara na floresta, mas conseguia ver o medo que causava. Um dragão carecia de impor seus domínios e força. Desde a Grande Divisão, o restante dos dragões tinha sucumbido ao poderio humano ou à inteligência élfica. Agora que a chama de Ghiardo começava a apagar, era preciso encontrar o sucessor.

Enquanto avançava sobre as cinzas de Dart-Mor, ele lembrava que não deveria seguir muito ao norte. Nem os dragões ousavam adentrar as Colinas Frias, depois que os tesouros da torre tinham sido liberados. Se o sucessor não se achasse na floresta destruída, teria de rumar direto para as Pirâmides de Ferro.

Era inesperado que as árvores morressem com tanta tranqüilidade. Não pareciam ser como as que cresciam no Oásis do deserto de Amdu. Aquelas eram tão cruéis quanto os dragões. Mas Dart-Mor repousava e aparente paz, enquanto as asas do grande Ghiardo espalhavam as cinzas.

O mais curioso era aquele odor. Não era ódio, mas podia ser sentido. Era tão forte que o havia atraído desde o Oásis. Porém não foi isso que o fez descer das nuvens e aterrissar nos galhos queimados da floresta. Perto da destruição, onde as chamas ainda não haviam consumido as folhas, morava um sentimento de esperança, que vagava pelas árvores e se confundia ao vento. Tal sentimento o repugnava.

Ao olhar para baixo viu o brilho das fadas se espalharem. Pelo visto queriam avisar as outras criaturas sobre o perigo. Isso não seria problema. O instinto de Ghiardo indicava que seu sucessor viria antes que a floresta pudesse revidar.

Quando suas garras encontraram o solo, o dragão pôde sentir que um pouco da esperança havia sucumbido. Um pouco, mas não toda. Ainda havia uma grande parte deste sentimento ali, em pé diante às cinzas. Era esperança unida a um outro sentimento, difícil de ser interpretado pelos dragões: coragem. Tudo isso na numa pequena criatura.

Coragem em forma de menina.


Yana seguia afundando e tropeçando na areia. O sol escaldante não tirava, e sim lhe dava forças. As horas pareciam voar, assim como o corpo de Yana. A menina demorou a perceber que os pés flutuavam e se deixavam levar pelo deserto.

Algo em seu interior queimava e clamava para sair. Seus braços começavam a roçar em troncos e galhos. Os quais a abraçavam e ajudavam a levá-la adiante. Não estava mais no deserto. O lugar era úmido e aconchegante.

Tudo lhe parecia familiar. Lembrava de suas brincadeiras com o irmão, seu povo, sua floresta. No entanto eram apenas lembranças. Ela estava no coração do Oásis de Amdu.

Ao ser deixada em uma grande rocha, ela pôde perceber porque voava. Suas asas descansaram nas raízes que cobriam o lugar. As escamas que revestiam seu corpo arranhavam o chão, mas pouco incomodava. O sono pesado a fazia esquecer de tudo aquilo. Aos poucos esquecia do irmão, do dragão e do rio.

Dias depois, quando acordou, já não era mais humana.

Alcy Filho


Imagem: j0Y-STiCK

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte IV

Visitando Bree...

Mais um dia de viagem e eu estaria em Bree, uma vila muito antiga, conhecida por ter sido a primeira morada dos meus antepassados, antes deles atravessarem o Rio Brandevin. Era tranqüila, mas um lugar ruim em dias de chuva. Por sorte consegui atravessar a Floresta Velha e as Colinas dos Túmulos ainda com o sol como companhia. Cheguei a Bree ao anoitecer, parecia tranqüila, isto é, parecia tranqüila antes de atravessar seus portões.

Na entrada encontrei alguns hobbits, eles saiam de carroça na direção leste, estavam voltando para o Condado, logo pensei que era um bom caminho para se fazer, mas não naquele momento. Entrei naquele pequeno povoado, não havia mudado muito desde a última vez que estive por lá, as mesmas casas, as mesmas pessoas e a mesma rua que levava para “O Pônei Saltitante”. Aquele sim era um bom lugar, tomar aquela maravilhosa cerveja, em um quartilho é claro, e ainda, dormir em quartos feitos para nós, era maravilhoso, parecia um pouco do condado longe das colinas do leste.

Não era mais o velho Cevado Carrapicho que estava no balcão, quem estava em seu lugar era seu neto Cercadinho, um homem alegre e que tentava manter as amizades de seu avô. Neste dia tomei cerveja com alguns hobbits, conversamos sobre assuntos corriqueiros e depois fui dormir. Tentei dormir, mas por fim acabei deixando meu quarto, sai para fumar um pouco e contemplar as belas estrelas do céu. Elas brilhavam e pareciam se comunicar. Sempre me perguntava se alguma delas eram guerreiros de outrora. Ouvia bastantes histórias do mundo, guerras entre homens e orcs, sobre os elfos, eu tentava imaginar a grandeza que estas histórias possuíam, mas no final sempre preferia os contos do Condado e suas poucas aventuras. A noite parecia mais longa, quando meu cachimbo se apagou, decidi voltar e tentar dormir. Deixaria Bree bem cedo, para ganhar tempo, pois era uma longa viagem, era um longo caminho a percorrer.

No outro dia, levantei muito cedo, desci pelas escadas da estalagem, e já havia arrumado minhas coisas, para que pudesse partir em breve. Iria em direção ao sul, pegando o caminho verde. Com tudo resolvido, decidi partir, logo que sai da do Pônei avistei um homem que dizia que estava indo para o sul, foi então que acabei escutando e perguntei a ele se podia lhe fazer companhia. Lembro-me muito bem desse dia, ele nem me olhou, apenas disse franzindo as sobrancelhas; “Sim, coloque suas coisas atrás da carroça e sente aqui ao meu lado”.

Continua...

Arthur Damaso

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte III


A Grande Estrada do Leste...

Havia me esquecido como era bom viajar. Alguns anos atrás fui à Bree encontrar velhos amigos, mas esta viagem durou apenas alguns dias, nada comparado a esta aventura. Fui então seguindo um caminho que eu há muito não fazia. Mas meu temor era exatamente este caminho, teria que atravessar o Rio Brandevin, o rio não era o problema, existia uma velha ponte como travessia, mas a Floresta Velha sim era um problema, e não só isso, ainda havia as Colinas dos Túmulos. Todos nós hobbits sabíamos dos perigos que lá existiam. Havia uma lenda sobre uma árvore que se mexia naquela floresta, e ela não gostava de viajantes, era o velho “Salgueiro Homem”; e também de um sujeito bem estranho, Tom Bombadil, mas ele havia desaparecido, talvez abandonado aquelas terras.

Procurei não ficar pensando nisso e segui a estrada, encontrei alguns conhecidos no caminho, outros que eu não via há tempos. No caminho acabei recebendo de bom grado uma ajuda, um hobbit muito gracioso me concedeu o direito de acompanhá-lo em sua carroça até os Campos das Pontes, lá eu acamparia, e de manhã atravessaria os campos pela borda da Floresta Velha, e depois As Colinas dos Túmulos, até então chegar a Bree.

Chegamos aos Campos da Ponte ao anoitecer, aquele com certeza fora um bom dia. Acendemos uma fogueira à beira da estrada, comemos um bom coelho assado e conversamos por muito tempo, contei a ele que estava de partida para terras distantes, ele disse que viria comigo, mas em outra oportunidade. Um novo dia surgiu e me despedi de Baldor, ele ia continuar sua viagem seguindo ao sul até a sua casa na Terra dos Buques. Vi sua carroça se distanciar até desaparecer no horizonte.

Atravessei a ponte do Brandevin e começava a avistar a floresta, o sol começava a surgir no leste e mais um dia se levantava comigo longe de casa. A Cada passo para fora do Condado, um pedaço de mim também ficava para trás, mas não era o fim, e eu tinha certeza que voltaria.

Continua...

Arthur Damaso

domingo, 6 de setembro de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte II


Seguindo Meus Próprios Passos...

Neste sonho eu viajava para o leste e visitava grandes florestas e encontrava um homem que trajava roupas esquisitas e um grande cajado. Ele estava rodeado de animais e me chamava para... Não me lembro para o que, mas acordei no meio da noite e não consegui mais dormir, eu nunca teria pensado em partir, mas os sonhos foram ficando freqüentes e eu decidi partir para uma longa jornada para um lugar desconhecido por mim. Não era uma atitude comum de um hobbit, eu queria ver as coisas além das fronteiras do condado, repetir os passos de outros hobbits, me lembrei de Frodo, Sam, Bilbo, Merry e Pippin, que acabaram tendo seus nomes escritos e lembrados em histórias e grandes poemas. Talvez essas fossem minhas grandes ambições, mas longe de ser uma obsessão.

Não me acostumei rapidamente com a idéia, tive que pensar bastante. Todos os dias eu me sentava em frente à lareira. Isolei-me de todos por algum tempo. Meu aniversário estava chegando e faria 45 anos no próximo mês. Pensava em partir antes de qualquer surpresa, não gostava de despedidas. Não seria um adeus definitivo, tinha certeza que veria estas colinas novamente, veria fumaça saindo das chaminés, veria as fumaças saindo dos cachimbos, sentiria a brisa que sempre vinha do oeste.

Levei minha vida de sempre para não causar desconfianças por parte de ninguém, e poucos dias antes do meu aniversário parti seguindo a grande estrada do leste. Naquele dia a noite estava estranha, com nuvens carregadas e ventos frios. Não era uma das melhores ocasiões para se viajar, mas juntei algumas roupas, panelas, meu cachimbo, uma garrafa de vinho, um cajado, e assim caminhei em direção a um mundo ainda desconhecido por mim. Não tinha certeza do que estava fazendo, mas não dava para voltar, teria que seguir em frente.

Continua...

Arthur Damaso

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Os Contos de Biodak - A Torre de Thur



Nerdick já foi habitada pelos pequenos, mas isso faz muito tempo. Antes mesmo de Hur se tornar ruínas, ou mesmo da formação dos Brejos Escuros. Neste tempo Nerdick era uma das mais lindas regiões do continente Biodak.


Os três garotos pararam atrás do último carvalho da floresta que rodeava a colina. De acordo com o mapa de Ordi, faltavam poucos metros para alcançarem o portal. Fazia um frio de congelar os ossos, mas a vista compensava todo e qualquer esforço. A torre mostrava-se ainda mais monstruosa de perto, sendo impossível avistar seu topo.
- Será que é verdade? – disse Amir, tremendo. – Quero dizer, porque é que as pessoas isolaram a torre? Nós conhecemos a lenda.
- Lenda é lenda – disse Ordi, levantando-se e tentando ver através do matagal que rodeava a torre. – As pessoas só deixaram de vir aqui por causa de uma estúpida lenda de demônios. Eu continuo achando que tem um tesouro aqui. Alguém deve ter inventado essa história pra afugentar intrusos.
- Vocês vão entrar ou ficar conversando? – gritou Thur do meio do matagal. – Se não for só lenda, a gente sai devagar, fecha a porta e ninguém fica sabendo.
Os três avançaram até um enorme portal. Devia ter no mínimo dez metros de altura por cinco de comprimento. Era rodeado por runas antigas, diferentes de qualquer língua que os garotos tinham visto. Ordi guardou o mapa no bolso e se aproximou do batente, observando as inscrições.
- Será o que diz? Talvez seja um aviso.
- Com certeza – resmungou Amir, olhando na direção da cidade. Uma fumaça azul subia de cada chaminé. – Deve dizer “Fiquem fora, idiotas”.
Ordi e Thur se entreolharam rindo.
- Sério, é melhor a gente voltar – falou Amir. – Foi até divertido subir a colina até aqui, mas algo me diz que a gente está indo longe demais. Aliás, devem estar atrás da gente.
- Não estão nem ligando pra nós três – disse Thur. – Estão todos se divertindo no festival.
Ele se virou e começou a analisar o portal. Não havia sinal de maçaneta ou fechadura. Era feito em mármore negro e cravejado de esmeraldas. Thur deslizou os dedos pela pedra, tateando cada saliência, tentando achar alguma abertura. Abaixou-se e se deparou com pequenas inscrições na língua dos pequenos.
- Vejam isso!
- “Diga ‘abra’ à sua torre e os tesouros mais profundos serão revelados” – Amir leu, cético.
- Eu disse! – gritou Ordi. – É um tesouro, tem um tesouro aí dentro e basta dizer... – ele se levantou e olhou fixamente para o portal. – Abra!
Nada aconteceu. A não ser uma brisa gélida que soprou a colina.
- Espere aí – murmurou Thur. – Aí diz “Diga ‘abra’ à sua torre”. Entendeu? “Sua”!
Amir e Ordi continuaram sem entender, enquanto Thur coçava a cabeça e tentava encontrar as palavras certas.
- Abra... Torre de... Thur.
O chão tremeu e os garotos caíram assustados. Por todos os lados aves voavam, fugindo dos arredores da torre. O portal balançou, soltando poeira, e começou a se mover para trás. Foi se afastando dos garotos através de um corredor aparentemente sem fim.
Um vento surgiu de dentro da torre, soprando os cabelos dos três.
- O que foi isso? – resmungou Amir.
- E que cheiro horrível é esse? Parece carne podre – falou Thur.
- Ah, deixem de reclamar e vamos procurar o tesouro! – disse Ordi, extasiado.
Ele entrou na torre. Era um longo corredor que dava acesso a várias outras salas. O chão de granito ecoava os passos de Ordi, que tentava imaginar onde o tesouro estaria. Amir e Thur seguiram o garoto.
- Com certeza está atrás de uma dessas salas! – ele se aproximou da porta mais próxima, mas também não tinha maçaneta. Tentou empurrar, derrapando o pé no chão, sem conseguir mover a porta nem um milímetro sequer.
Os garotos começaram a inspecionar cada uma das salas. Não havia inscrição alguma que indicasse como abri-las.
Thur encostou o ouvido em uma delas e escutou um chiado. Na verdade eram vários chiados e grunhidos. O garoto arregalou os olhos e acenou para os irmãos ouvirem também. Eles ficaram ali impressionados com os sons da sala e não perceberam o que começava a invadir o corredor.
Thur sentiu algo espinhoso se enrolar nos seus pés. Olhou pra baixo e viu algo parecido com uma raiz. Ela rodeava sua pele e, com os espinhos, rasgava a carne. Ele gemeu de dor e caiu no chão.
Amir e Ordi perceberam as raízes e tentaram remove-las. Elas saíam de fendas nas paredes e no chão e se concentravam apenas em Thur.
- Vamos, tira! – o garoto chorava de dor. – Essa coisa está cortando a minha perna!
Ordi tirou um canivete do bolso e tentou cortar as raízes.
- É grosso demais!
De repente um estrondo, e uma das portas desmoronou, lançando pedaços de mármore pelo corredor. Amir lacrimejou devido a poeira e tentou enxergar através dos escombros. Um ser bege e robusto, de cerca de três metros de altura, surgiu dos destroços arrastando algo que parecia um gigantesco porrete. Era exatamente do jeito que as histórias contavam. Um genuíno troll das cavernas.
Ele avançou e socou Amir contra a parede. O garoto bateu a cabeça nas pedras e foi jogado ao chão. As raízes já tinham envolvido até a cintura de Thur, que se balançava ferozmente tentando se livrar dos espinhos. Seu sangue ia sujando o chão de pedra enquanto as raízes o puxavam pelo corredor.
Ordi correu em direção a Thur, mas foi impedido pelo porrete do troll que bateu em suas costas, jogando-o contra uma das portas. Em seguida caiu com o rosto no chão gelado. Sentia gosto de sangue na boca e não conseguia mover os braços nem as pernas. Abriu os olhos e viu Amir perto da entrada da torre, desacordado. Fez um esforço gigantesco e virou lentamente o pescoço para a direção oposta. Viu um vulto na escuridão do corredor. Era Thur sendo arrastado, riscando o chão com as unhas, gritando por socorro.
O troll passou por Amir e saiu da torre, rugindo ferozmente em direção à cidade.
As portas ao longo do corredor começaram a se abrir, uma após a outra. Ordi, paralisado, assistiu o fogo tomar conta da torre, enquanto criaturas horrendas saíam das salas. O pequenino fechou os olhos e sentiu as chamas queimarem seu corpo.
Gritos e barulho de asas. Era o que se ouvia nas Colinas Frias.


Darla passou por um grupo de crianças na sala de estar, olhou atentamente. Não estavam ali. O desesperou se apoderou dela. Resolveu procurar no pátio. Uma banda ao centro tocava uma música estridente, enquanto várias pessoas bebiam e dançavam. Dezenas de mesas de madeira se estendiam pelo lugar, onde as pessoas comiam e riam, comemorando a boa caça. Darla avistou Jareh no meio da multidão.
- Você viu as crianças? – ela gritou.
- Sim, várias! – ele riu e entornou uma caneca de cerveja. – Escolha uma!
- Estou falando das nossas crianças!
- Devem estar lá fora brincando com os outros garotos. Fique calma, hoje é dia de festa.
Ela sentiu um aperto no peito. Sabia que eles não estavam no festival. Não podia ser coincidência o mapa sumir junto com as crianças. Com certeza tinham ido à torre.
- Jareh, o mapa sumiu!
Mas ele não escutou. Um tremor abalou o pátio, derrubando mesas e fazendo a música parar. Um silêncio constrangedor instaurou no lugar, enquanto todos se olhavam assustados.
Em seguida um vendaval ensurdecedor invadiu o pátio. O vento pútrido somou terror a todos no lugar. Darla saiu correndo para a rua.
Centenas de pessoas murmuravam na avenida principal. Faixas de comemoração haviam caído. Comida e bebida se espalhavam pelo chão. Todos pareciam desnorteados, com medo do que poderia acontecer em seguida.
- Os meninos passaram por aqui? – Darla perguntou para um grupo de garotos na entrada do pátio.
- Por aqui não – respondeu um deles. – Mas acho que vi Amir na encosta da colina. Ele corria para alcançar alguém.
Um rugido ecoou ao longe. Todos se viraram para a gigantesca torre ao norte. Fogo saía de suas paredes e o céu começava a escurecer. Sons estanhos ecoavam pelas colinas. Sons demoníacos.
O caos dominou a cidade. Pessoas saíam de todos os lugares, pegando crianças pelo caminho, empurrando uns aos outros. A desordem apenas aumentava com todos tentando fugir ao mesmo tempo.
Darla ficou no meio da avenida, paralisada, olhando o norte. Não ouviu Jareh gritar para correr, não ouviu a sinal de alerta. Ela sabia que era sua culpa. Não havia escondido direito o mapa e agora seus filhos tinham acordado os demônios da torre.
Poucos foram os que conseguiram fugir das criaturas que desciam à colina. Poucos escaparam das trevas que há eras esperavam para tomar Nerdick.
Dizem que os que ficaram foram acometidos pela loucura e pelo terror que os demônios causam aos vivos. E não mais morreram, passando a eternidade sob a tortura da torre.
As Colinas Frias se tornaram o que é hoje: um lugar onde nunca é dia. Um lugar dominado pelos tesouros mais profundos da Torre de Thur.

Alcy Filho

domingo, 30 de agosto de 2009

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte I


Eram tempos tranqüilos, dez anos haviam se passado desde a guerra do anel, o Condado agora estava mais calmo, como de costume, e assim nós hobbits pudemos levar nossas vidas com a calma costumeira de sempre. Como disse Bilbo certa vez: “Não é nada ruim celebrar uma vida simples”. Minha toca não ficava muito longe de Bolsão, vazia agora, já que Frodo partiu para o Oeste, junto com Bilbo e os elfos, às vezes, Sam aparecia e relembrava os bons tempos que passou junto com o seu eterno companheiro. Sempre que posso, vou até lá também.

Minha casa fica abaixo de uma colina, uma típica toca de um hobbit. Na entrada uma grande porta redonda pintada de verde, logo abaixo segue uma escada com algumas flores nos cantos, depois tem uma pequena estrada com algumas pedras que vão até a rua. Aos fundos, uma grande cerejeira, plantada pelo meu pai, e ao redor, rosas que eu mesmo plantei. Bem... Depois de muitos anos estou de volta, este lugar continua com a mesma “magia” de sempre, mas eu não sou mais o mesmo hobbit que ficou 15 anos fora de casa.

Desculpem-me, ainda não me apresentei. Meu nome é Balur Bolseiro, vivo em uma confortável toca como já descrevi, moro na Vila dos Hobbits e essas são algumas de minhas memórias.


As Colinas das Torres...

Certa vez resolvi visitar as majestosas torres do oeste, elas me faziam lembrar os que partiram e de alguma forma isso me entristecia. Mesmo com o fim da guerra, não há mais a alegria de outros tempos. Os elfos partiram e restam poucos para contarem histórias dos primórdios do mundo. Após a Guerra do Anel, senhor Aragorn anexou as terras das Colinas das Torres ao Condado, homens eram proibidos de entrar nas terras dos hobbits.

Minha viagem durou alguns dias até as majestosas torres. Estavam trancadas há um bom tempo, consegui abrir uma, depois de um grande esforço, subi no seu ponto mais alto e de lá pude observar o grande mar que cercava estas terras. Um vento suave e fresco vinha do oeste, parecia que me encorajava a sair e visitar outros lugares, não conseguia compreender, mas algo me dizia para partir e contemplar as montanhas e os ermos.

Naquele dia o céu estava magnífico, era possível ver “A Foice dos Valar”, elas rutilavam no céu como velas em meio à escuridão. Eu tinha feito uma fogueira e havia trazido tomates e bacon, recolhido também algumas ervas que cresciam aos pés das torres, foi um belo jantar, mesmo que sem os rotineiros banquetes da estalagem do Dragão Verde. Mas a tranqüilidade ali era tamanha que só se ouvia o barulho da brisa sobre os arbustos e algumas árvores esparsas. Fiquei pensando em tudo o que havia acontecido. A grande guerra havia acabado, estava tudo em paz, a Terra-Média se tornava de novo um bom lugar para se viver, e na imensa paz daquele lugar eu adormeci para um novo dia.

No outro dia bem cedo, resolvi ir até a costa destas baias, ir e ver a imensidão do mar. Não era muito distante e bem rápido cheguei à beira. Parei no alto de uma rocha, peguei uma pequena pedra, fiz um pedido e a joguei na água. Resolvi então voltar à minha velha casa, retomar o conforto do lar.

A viagem de volta fora bem tranqüila... Cheguei à minha velha toca ao anoitecer com certo cansaço, tive tempo de abrir minha grande e redonda porta, acender a lareira e meu cachimbo, ali mesmo em frente à lareira acabei adormecendo e tive um sonho estranho.


Continua...

Arthur Damaso

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os Contos de Biodak - O último toque de Amdu



A fada, ainda aflita, pousou sobre o tronco queimado e observou a menina e o menino. A primeira ia à frente, os fios castanhos, embaraçados pelo vento, tocavam os galhos da floresta. Ela conhecia cada trilha, cada caminho por entre as árvores. A audição substituía perfeitamente a visão. Enquanto corria, imaginava um mundo colorido, que apenas aqueles olhos cegos poderiam ver.
O menino ia atrás. A cada dois passos tropeçava num galho. Era para ser uma corrida de cegos. A venda nos olhos serviria para equilibrar a disputa, mas ele não conhecia o caminho. Já não dava mais para contar nos dedos os arranhões adquiridos no percurso. O garoto decidiu que já bastava. Retirou a venda e esfregou os olhos que ardiam devido à claridade. Eles já não estavam na floresta que conheciam. O cheiro de cinzas invadiu as narinas do menino, que começou a tossir.
- O que aconteceu aqui, Yana? – ele gritou para a menina, parada logo à frente.
- Quieto! – sussurrou ela. – Não estamos sozinhos.
Uma gota de suor surgiu na testa do menino. Logo surgiram outras. O tempo mudou de úmido para infernal. Ele passou a mão pelos cabelos já encharcados, então congelou. Escutou um estrondoso barulho de asas. Quando olhou para cima o mundo girou. A última coisa que viu foi a face odiosa do monstro. Depois disso, caiu inconsciente sobre as cinzas da floresta.
A menina permaneceu parada. O corpo molhado totalmente enrijecido. Qualquer um que a visse pensaria que estava em estado de choque. Qualquer um menos o monstro. Com um baque ensurdecedor ele pousou sobre os galhos queimados. Cada momento ao lado da criatura era um convite à asfixia.
- Por que permanece em pé, garota? – perguntou o monstro. Sua voz fazia tremer cada grão de terra no chão.
Yana permaneceu calada, os lábios colados pelo suor.
- Não adianta ficar muda. Eu sou Ghiardo, o Senhor dos Dragões de Amdu. Enxergo o medo, escuto a mentira e cheiro o ódio. E você, menina, emana ódio em cada gota de suor.
- As árvores... – ela finalmente disse, com os dentes serrados, respirando fundo. – Por que queimou as árvores?
- Os propósitos de um dragão são complexos demais para um ser de sua estatura compreender. Seu companheiro deve ter percebido isso quando resolveu desmaiar e se entregar.
A menina fechou os olhos e deixou as lágrimas se juntarem ao suor, chorando num ódio silencioso.
- O que vai fazer com ele? – ela perguntou.
O dragão andou calmamente ao redor de Yana. Quando parou, seus olhos grandes e cegos encaravam os olhos brancos da menina.
- Não posso te ver – falou ele. – Mas a quilômetros fui atraído por seu cheiro. De repente sua estatura parece não mais importar.
As garras do monstro envolveram o corpo frágil da menina, que não tentou resistir. Quando ele impulsionou vôo, apertou as grossas unhas por sobre Yana, fazendo-a gritar.
O menino acordou e viu o dragão carregando a menina. Não conseguia se levantar nem falar, tal era o medo que o envolvia. Talvez se os tivesse seguido teria visto o monstro ser atingido pelo raio do Mago e Yana caindo no rio Cran.
Mas o garoto não presenciou nada disso. Em sua mente, e na de seu povo, ficou apenas a imagem da menina cega raptada pelo monstro alado.
Yana jamais voltaria a encontrar o irmão. Esteve até o fim de seus dias amaldiçoada pelo toque do último dragão de Biodak.

Alcy Filho


Imagem: Ìllume