terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os Contos de Biodak - O último toque de Amdu



A fada, ainda aflita, pousou sobre o tronco queimado e observou a menina e o menino. A primeira ia à frente, os fios castanhos, embaraçados pelo vento, tocavam os galhos da floresta. Ela conhecia cada trilha, cada caminho por entre as árvores. A audição substituía perfeitamente a visão. Enquanto corria, imaginava um mundo colorido, que apenas aqueles olhos cegos poderiam ver.
O menino ia atrás. A cada dois passos tropeçava num galho. Era para ser uma corrida de cegos. A venda nos olhos serviria para equilibrar a disputa, mas ele não conhecia o caminho. Já não dava mais para contar nos dedos os arranhões adquiridos no percurso. O garoto decidiu que já bastava. Retirou a venda e esfregou os olhos que ardiam devido à claridade. Eles já não estavam na floresta que conheciam. O cheiro de cinzas invadiu as narinas do menino, que começou a tossir.
- O que aconteceu aqui, Yana? – ele gritou para a menina, parada logo à frente.
- Quieto! – sussurrou ela. – Não estamos sozinhos.
Uma gota de suor surgiu na testa do menino. Logo surgiram outras. O tempo mudou de úmido para infernal. Ele passou a mão pelos cabelos já encharcados, então congelou. Escutou um estrondoso barulho de asas. Quando olhou para cima o mundo girou. A última coisa que viu foi a face odiosa do monstro. Depois disso, caiu inconsciente sobre as cinzas da floresta.
A menina permaneceu parada. O corpo molhado totalmente enrijecido. Qualquer um que a visse pensaria que estava em estado de choque. Qualquer um menos o monstro. Com um baque ensurdecedor ele pousou sobre os galhos queimados. Cada momento ao lado da criatura era um convite à asfixia.
- Por que permanece em pé, garota? – perguntou o monstro. Sua voz fazia tremer cada grão de terra no chão.
Yana permaneceu calada, os lábios colados pelo suor.
- Não adianta ficar muda. Eu sou Ghiardo, o Senhor dos Dragões de Amdu. Enxergo o medo, escuto a mentira e cheiro o ódio. E você, menina, emana ódio em cada gota de suor.
- As árvores... – ela finalmente disse, com os dentes serrados, respirando fundo. – Por que queimou as árvores?
- Os propósitos de um dragão são complexos demais para um ser de sua estatura compreender. Seu companheiro deve ter percebido isso quando resolveu desmaiar e se entregar.
A menina fechou os olhos e deixou as lágrimas se juntarem ao suor, chorando num ódio silencioso.
- O que vai fazer com ele? – ela perguntou.
O dragão andou calmamente ao redor de Yana. Quando parou, seus olhos grandes e cegos encaravam os olhos brancos da menina.
- Não posso te ver – falou ele. – Mas a quilômetros fui atraído por seu cheiro. De repente sua estatura parece não mais importar.
As garras do monstro envolveram o corpo frágil da menina, que não tentou resistir. Quando ele impulsionou vôo, apertou as grossas unhas por sobre Yana, fazendo-a gritar.
O menino acordou e viu o dragão carregando a menina. Não conseguia se levantar nem falar, tal era o medo que o envolvia. Talvez se os tivesse seguido teria visto o monstro ser atingido pelo raio do Mago e Yana caindo no rio Cran.
Mas o garoto não presenciou nada disso. Em sua mente, e na de seu povo, ficou apenas a imagem da menina cega raptada pelo monstro alado.
Yana jamais voltaria a encontrar o irmão. Esteve até o fim de seus dias amaldiçoada pelo toque do último dragão de Biodak.

Alcy Filho


Imagem: Ìllume

2 comentários:

  1. Uma coisa muito forte me faz relacionar Yana à uma personagem que eu amo, do filme A Vila, a Ivy Walker :)
    O último toque de Amdu é bem legal, já li várias vezes.

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