segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os Contos de Biodak - Destroços e Retalhos - Parte 1



Após a fuga dos pequenos das Colinas Frias, o lugar encontrado por eles, e transformado em seu novo lar, foi a Floresta Dart-Mor. Por algum motivo os seres da Torre não ousavam enfrentar as gigantescas árvores que rondavam as Colinas. Por cerca de duzentos anos os pequenos fizeram das árvores sua nova casa, para depois migrarem à Planície Roxa e, finalmente, estabelecerem-se em Feenos, protegidos pelo Paredão de Akina.

Mas antes de os pequeninos abandonarem o território seguro de Dart-Mor, um velho contador de histórias resolveu voltar às Colinas Frias. Lugar habitado pelas mais frias e cruéis criaturas, libertadas da velha e misteriosa Torre.


Agda batia a colher de bronze contra o prato de madeira. Encostou o cotovelo sobre a mesa e repousou a cabeça sobre a mão esquerda. Começou a remexer seus legumes.

- Pare de brincar com a comida, Agda! – vociferou Tami, tentando mastigar a hortaliça que o marido havia trazido.
- Mas, mãe... – resmungou a garota, sem ânimo. – Isso tem gosto de terra!
- Bem, se você não tivesse experimentado terra, talvez gostasse um pouco mais das verduras que seu pai traz.
- Não a force, Tami... – disse Yann que não havia dito uma palavra desde que chegara da colheita. – Nem eu consigo engolir esse capim.

Ele largou o talher no prato e saiu da mesa. Passou pela porta da sala e ficou na sacada, observando as outras casas. Eram todas feitas de bambu, sustentadas pelas várias sequóias da floresta Dart-Mor. Era noite e a maioria das luzes estava ligada. Porém uma casa em especial permanecia sob total escuridão. Yann encostou os braços no parapeito e respirou o ar puro da floresta.

Tami saiu da sala e ficou observando as casas ao lado do marido. Sabia bem o que o incomodava.
- Ele insiste em voltar? – falou após um longo silêncio.

Yann abaixou a cabeça e deixou os cabelos balançarem à brisa que batia na copa da árvore.

- Ainda não acredito que ele veio de lá... – disse, observando o aparente abismo que se estendia abaixo. – Agora quer voltar. Diz que tem de buscar a mãe e que é tudo culpa dele.
- Ninguém sabe o que acordou a Torre! – falou Tami. – Mesmo que ele diga que foram três garotos, como alguém poderia saber? E se ele tem uma mãe lá, já deve estar morta. Não tem como ter sobrevivido todo esse tempo. Me dá arrepios só de pensar no que aquilo se tornou.
- Ele parece nem sentir – disse Yann, curvando a cabeça em direção à uma casa logo a frente. Da porta da frente saía um velho, de mochila nas costas e portando um cajado. Ele começou a descer a longa escadaria, mas parou por um momento. Virou-se para trás e encarou Yann.
- Não faça nada – sussurrou Tami. – Já tentamos tudo o que pudemos. Se ele quer se sacrificar, deixe-o ir.
- Ele não vai conseguir sair de lá. Não agora.

O velho tornou a se virar e continuou a descer os degraus. Tami e Yann o observaram sumir na escuridão lá embaixo. Ela fixou o olhar nas copas das árvores, logo acima.

- Resta esperar que as Colinas Frias não o deixem entrar.


Naquele ponto da floresta era possível sentir a presença da Torre. Ela estava a quilômetros de distância, mas emanava um mal tão grande como nunca poderia se imaginar. Faltava pouco para o velho pequenino alcançar a orla da Floresta Dart-Mor. Por anos aquelas árvores serviram de abrigo contra as trevas que assolaram as Colinas Frias. O velho já sentia calafrios só de lembrar o terror que voltaria a enfrentar. Ele enxugou o suor de sua face queimada e continuou a viagem.

Enquanto caminhava pela estrada proibida, as árvores mudavam de aparência. De um marrom vivo passavam a um cinza disforme. Não havia mais brisa, não havia mais o costumeiro canto dos pássaros. O velho tinha chegado à fronteira entre Dart-Mor e as Colinas Frias.

Há tempos ele não via um céu tão escuro. Pelo visto os raios de sol nunca mais alcançaram os descampados das colinas. Um cheiro pútrido invadiu as narinas do pequeno, lembrando-o dos terríveis acontecimentos que nunca saíram de seus sonhos. Sentiu vontade de vomitar, queria desistir daquela viagem suicida, mas não poderia viver por mais tempo com aquela culpa.

Ele sabia que quando deixasse a floresta, tudo iria mudar. Quem olhasse de longe pensaria que as Colinas Frias tinham sido acometidas por uma sombra, e nada mais. Enorme engano. Ao passar pelo último galho morto de Dart-Mor, uma escuridão engoliu o pequenino. Ele sentia tudo queimar a sua volta, num calor quase insuportável. Sem pensar duas vezes, o velho continuou andando, embrenhando pelo inferno, sem mais enxergar.

Alcy Filho


Imagem: Oilpntr58

Menestréis - 1 e 2




A Fuga

   Correu o máximo que podia, havia sido condenado à guilhotina, por um crime que não podia evitar, a arte. Estava suando frio, o coração a saltar do peito, sem fôlego, teve que parar, sabia que estava na praia, e precisava encontrar as docas. Foi seguindo o cheiro de madeira.

Quando um barco encontrar,
Poderei me salvar deste ínfimo infortúnio,
A rimas vulgares sujeito.
Quem já partiu foi embora,
Quem foi embora voltará.

   O Menestrel se frustrou por estar com tanto medo e não poder esculpir palavras melhores. Percebeu que estava dentro de um barco. Ele sabia que não havia ninguém ali, tirou um canivete do bolso e cortou as cordas que prendiam o barco à praia. Logo começou a ouvir tambores e gritos selvagens, mas ainda distantes. Tinha que fugir daquela ilha o mais rápido possível.

   O pequeno barco ia lentamente, as ondas estavam calmas para uma noite escura como aquela. O Menestrel tateou tudo o que havia ali, como facas, redes de pesca, papéis sobre uma mesinha, e um baú. Dentro do baú havia vários frascos pequenos, de uma bebida com cheiro de flores, mas o Menestrel ainda não sabia o que era aquela bebida, e não experimentou. Pegou um frasquinho e guardou no bolso. Ele sabia que não seria perseguido agora, estava no mar e não mais seria um infortúnio. Ouviu gritos na praia, lanças e pedras chegaram perto. A ilha ficava cada vez mais distante e ele desmaiou de cansaço.
~

Uma personagem não é mencionada

   Com sua corja, o rei Baleth oprimia o povo com violência. Quando uma família sacrificava um carneiro, colhia trigo, ou usava o moinho, mais da metade do que era produzido devia ser entregue no Palácio do rei. O povo de Árane se sentia escravizado e estava cansado desses enormes tributos e serviços que eram obrigados a prestar.

   Árane era um país, mas era uma única e grande vila. Havia centenas de casinhas simples e pobres de madeira e barro, entre ruas de terra pisoteada. Chovia quase todas as noites, e os dias eram ensolarados. Só o Palácio era luxuoso, e todos eram proibidos de entrar lá sem autorização dos guardiões, que eram vigias e capangas do rei.

   Os áranes eram muito parecidos, pele queimada do sol, cabelos e olhos escuros, respeitosos e honestos, cada família preservava valores distintos. Trabalhavam muito, e por falta de tempo para ensinar os jovens, só os mais velhos ainda sabiam ler e escrever. Às vezes, todos se reuniam no Campo, que ficava no centro da vila, e lá era acesa uma grande fogueira, e os filhos dançavam enquanto os pais e avós cantavam sobre Outrora, uma época em que havia felicidade e vitalidade em Árane, e não amargura e cansaço.

   Calisto, um tecelão, era preocupado, talvez mais do que todos, com a situação humilhante em que se encontravam, subordinados a Baleth. Durante meses, Calisto estudou uma possibilidade de se reunir com o povo em segredo, e essa hora havia chegado, sendo que dia e noite, até nos encontros no Campo, eles eram vigiados pelos guardiões do rei.

   Todos foram cautelosamente avisados sobre a reunião, que aconteceria na madrugada em que vinte dos guardiões participariam de um jantar com o rei Baleth, e os outros quarenta provavelmente comeriam muito e cairiam no sono, como havia suposto Calisto, com base em suas observações.

   No horário combinado, todos foram em silêncio e no escuro para a casa de Calisto, e nenhum guardião percebeu as pessoas nas ruas, andando como em uma procissão. O povo, ao chegar, foi se acomodando como pôde, porque na casa de Calisto, mesmo com muito espaço, não havia muitos bancos e cadeiras, mais da metade das pessoas ficaram do lado de fora, mas de forma com que pudessem participar da reunião. Ficaram em casa as crianças e os muito jovens.

   - Agora podemos conversar e tentar encontrar uma solução para Árane. Nossa última tentativa de destruir Baleth, no ano passado, foi uma decepção, disse Calisto.

   O que foi essa decepção, em outra ocasião será contada.

   - Vocês sabem que ainda há uma esperança, e talvez seja impossível, mas é o que nos resta.

   Continuou Calisto, dizendo o que todos queriam ouvir.

   - Nós precisamos da ajuda de Tílitris!, Calisto estava em cima de uma mesa, e as mulheres se escondiam atrás de seus maridos, com os olhos arregalados. Todos sabiam o que aquilo significava.

   Tílitris era um país ao Leste, e em Outrora, mantinha boas relações com Árane, mas agora estavam isolados um do outro. Baleth entrou no poder de Árane e mudou rapidamente o sistema político, o transformando em um reino opressor. Em Tílitris, ainda haveria respeito e igualdade, e Feltris como soberano de uma nação que sempre foi culturalmente desenvolvida.

   Os áranes acreditavam que Feltris não recusaria um pedido de socorro, para tirar o Baleth do poder. À medida que Calisto falava, a esperança iluminava os olhares daquele povo.

   - Feltris já foi nosso amigo, se ele souber da situação em Árane, ficará do nosso lado, completou Calisto.

   Eritar, um ancião, se levantou para falar.

   - Não sabemos da situação de Tílitris nos dias de hoje, e eles não sabem que fomos escravizados por Baleth. Mas mesmo que possamos contar com o apoio de Tílitris, como poderemos nos comunicar com eles? É impossível passar pelo Portão de Evonuque, o Mandingueiro Búfalo.

   Após Eritar, todos começaram a falar ao mesmo tempo, mas todos a favor de mandarem alguém para Tílitris. Calisto chamou a atenção.

   - Alguém precisa tentar passar pelo Portão de Evonuque, é a única forma de se chegar a Tílitris, não há outro caminho. Difícil será encontrar alguém para ir até lá.

   Cinco homens, pais de família, se voluntariaram para ir. Calisto tomou a palavra novamente.

   - Todos nós agradecemos a coragem de vocês, mas temos que ser discretos, para que ninguém do Palácio perceba o que estamos planejando. O enviado a esta missão deve ser alguém que não faça falta, a pessoa mais insignificante aos olhos do rei.

   Liriar, filha de Eritar, disse:

   - Com todo o respeito, mas quem poderia ser essa pessoa invisível?

   Todos olharam uns para os outros, esperando que alguém se pronunciasse, mas os áranes eram muito orgulhosos, e, apesar das humilhações do dia-a-dia, tentavam manter sua dignidade. Ninguém queria ser considerado insignificante e sem importância.
~

Daniela Ortega