domingo, 26 de setembro de 2010

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte XI


Seguindo a fumaça...



Longas caminhadas diárias. Era muito pra mim. Antigamente, a única caminhada que eu fazia, era para a estalagem Dragão Verde, ou então, para o moinho — do já falecido Feitor — pegar farinha, para fazer um grande e saboroso pão de ló.

Esses assuntos sempre me deixavam com mais fome. Em momentos como estes, eu olhava para o horizonte e sempre avistava uma fumaça saindo de alguma chaminé, com certeza alguém estava fazendo alguma delícia, talvez, tomando chá com torradas, comendo torta de amoras... Mas parecia que desta vez, eu realmente estava avistando uma fumaça. Esfreguei os olhos para ver se eles estavam me pregando uma peça, mas não, realmente subia uma fumaça em direção ao céu.

Estava bem distante ainda, mas era visível. O problema era que a fumaça estranhamente vinha do interior da floresta. Como conseguiria não me perder? Essa pergunta martelava em minha cabeça, era como um anão batendo na bigorna.

Perguntei à Narubb qual seria a decisão a tomar. Ela apenas voou e me deixou em meios as dúvidas. “Muito obrigado!”. Assim eu gritei. Os gritos ecoaram, e muitos outros gritos foram ouvidos dentro da floresta. Bem, na carta não havia nada que me impedisse de seguir um caminho por dentro da floresta. Aliás, na carta estava escrito; “Confie nas asas da bela coruja”, Telárius parecia estar errado.

Comecei então uma longa caminhada, durante certo tempo, consegui seguir a fumaça, algumas árvores atrapalhavam de vez em quando minha visão. Encontrei um riacho, tomei um pouco de água, colhi algumas frutas que cresciam em pequenos arbustos, depois continuei minha jornada. À medida que eu avançava para dentro da floresta, a luz minguava, e assim, minhas esperanças de terminar aquela viagem também. Quem era o velho que povoava meus sonhos? Por que fazer esta viagem para tão longe?

Já estava difícil enxergar a fumaça, as árvores tapavam minha visão para fora da floresta, a escuridão crescia diante de cada passo meu. A floresta era muito úmida, somente um anão conseguiria fazer fogo em um lugar como aquele. O vento entrava pela borda da floresta, era frio como o inverno e balançava as árvores como muita força, algumas pareciam até acenar pra mim. Continuei caminhando, foi então, que tive a idéia de subir em uma árvore, para tentar enxergar a fumaça novamente. Aquilo mudaria todo o rumo da viagem, uma completa reviravolta.

Ao tentar subir na árvore, obtive sucesso. Não havia carvalho, teixo, ou freixo que me segurasse. Era sempre eu a subir nas amoreiras, ou para me esconder durante as festas no Condado. Alcancei o galho mais alto, retirei algumas folhas do caminho. Já era possível avistar as primeiras estrelas brilhando no céu, e a fumaça também, para minha alegria. Um momento, um único momento de descuido... Eu tombei, caindo do alto da grande árvore, e ao cair no chão, meus olhos se fecharam, não pude ver mais coisa alguma.

Não sei por quanto tempo fiquei vagando no mundo inconsciente, mas ao acordar, ainda estava bastante tonto e, algo parecia me carregar, o pouco que vi, posso afirmar. “Era um ent.”. Ele me carregava para algum lugar, não consegui ficar acordado ou totalmente consciente para saber.

Quando enfim acordei, estava deitado em uma cama, com um pouco de dor de cabeça. Ao lado da cama, um homem — já velho —, fumava um cachimbo, e observava algo pela janela. Quando olhei para ele, consegui me lembrar, era o mesmo velho que aparecia nos meus sonhos, depois que visitei as Colinas das Torres. A primeira coisa que eu disse foi; “Você?!”.

Continua...

Arthur Damaso

sábado, 18 de setembro de 2010

Menestréis - 8



Leão da Montanha

   Correndo o dia todo com Bardax, Olívia pensou muito no quanto aqueles ciganos eram diferentes de tudo o que ela já havia visto antes, e em como de certa forma ela se identificou com eles, e teve vontade de voltar e ir para a Tenda Magnífica também. Mas tinha que tentar passar pelo Portão de Evonuque e seguir até Tílitris.

   Era tarde e Olívia caminhava, para dar um descanso a Bardax. Avistou uma grande muralha de montanhas que bloqueavam a passagem e sumiam de vista do Norte ao Sul. Eram altas e belíssimas, cobertas por um capim verde escuro e poucas árvores, havia areia ao pé da montanha mais baixa. E Oíivia disse a Bardax que iriam por ali, seria mais fácil. Essa cadeia montanhosa era altíssima e tão fria no topo das montanhas que nenhum ser conseguia sobreviver àquelas altitudes, que atingiam as nuvens. A única passagem viável para o Leste era o Portão.
  
   Estava escuro, e eles passavam pela areia, quando avistaram uma figura clara e enorme descendo da montanha mais baixa. Bardax não se assustou, e por isso Olívia decidiu não se esconder nem correr, esperaram. Era um leão. Olívia ficou com medo, mas eles permaneceram parados. O Leão se aproximou:

   - Quem são vocês? O que querem aqui? Há anos não vejo nenhum peregrino por estes ermos.
   Olívia ficou assustada. Era um leão que falava, ninguém nunca havia contado a ela que leões falavam.

   - Sou Olívia Dríniel, venho de Árane, e este é Bardax. Queremos passar por um Portão, que deve estar em algum lugar por aqui. Vamos para Tílitris, um país que fica do outro lado desse Portão.

   - O Portão de Evonuque... disse o Leão, preocupado.

   - Sim. Respondeu Olívia.

   - Venham para o meu abrigo e posso aconselhá-los sobre isso. Está começando a chover.

   Bardax foi indo na frente, parecia feliz. Olívia confiava no instinto de Bardax, e o Leão parecia ser amigável e sincero.

   Os três foram para debaixo de uma grande pedra, que tinha pinturas e desenhos em vermelho e azul. O Leão os ofereceu carne de coelho e Olívia tentou acender uma fogueira para assar o alimento, mas as pedras estavam úmidas. O Leão disse que morava ali há muitos anos, antes de Evonuque chegar.

   - O Portão do Mandingueiro Búfalo fica ali atrás, nesta montanha. Ele vive por aqui, mas o vejo raramente, e nunca nos falamos.

   Olívia e Bardax comiam a carne crua, enquanto ouviam o Leão da Montanha.

   - Olívia, você terá que mandar Bardax voltar para casa, se quiser atravessar o Portão. O Mandingueiro pode querer aprisioná-lo para usar em suas mandingas, eu já vi muitos cavalos presos por ele, e soltos após anos de cativeiro.

   Olívia fez muitas perguntas ao Leão da Montanha, e se convenceu de que levar Bardax para Evonuque não era correto. Olívia quis saber o que ela teria que fazer para passar pelo portão, mas o Leão da Montanha disse que não sabia, e achava que a passagem poderia ser impossível, mas que alguém, algum dia, teria que tentar.

   O Leão de repente ficou olhando para as pinturas, e Olívia perguntou quem havia desenhado aquilo tudo, e ele disse:

   - Foi feito pelo seu povo, que é o povo de Tílitris e de muitos outros lugares neste Mundo.
   Olívia então se lembrou do que a cigana dissera “falamos a mesma língua, significa que nossos ancestrais são os mesmos”. E eles dormiram, chovia.
~
Daniela Ortega

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte X


Um grande reencontro na Floresta de Fangorn...

É... a companhia de Nórgand durara pouco tempo. Estava novamente sozinho. Logo alcançaria a Floresta de Fangorn. Muitas histórias eu escutava daquela floresta, mas ela parecia ter mudado. Com a chegada da Quarta Era do Sol, muitos lugares que se viam nas sombras, ficaram inundados de luz e prosperidade. 

Onde estaria Narubb? Era uma pergunta que rondava meus pensamentos. Depois de dois dias caminhando entre pedras e alguns arbustos, me vi na borda da floresta. Não era tão assustadora assim, mas era muito grande. Vários dias até que eu atravessasse toda a floresta. Se eu tivesse ido por dentro, não haveria estrada, poderia me perder, não valeria à pena tentar encurtar caminho.

Dei uma olhada para dentro da grande floresta, um vento frio saia de lá, era como o vento que anuncia o inverno, enquanto as folhas caem. Mas, já havia me decidido, tomaria o caminho mais longo, porém, mais seguro. Encostei-me em um velho teixo para descansar. O cansaço tomara conta de mim, então cai em sono profundo. Não durou muito meu descanso, foi quando percebi algo se aproximando, um barulho de asas batendo... Sim, era Narubb! Não poderia deixar de reconhecer uma coruja grande e azul.

Fiquei muito contente em revê-la. Muitos dias haviam se passado desde nosso ultimo encontro. Narubb parecia trazer alguma mensagem, com certeza era de Telárius. Resolvi por não abrir sua mensagem naquele momento, logo pensei... ”Não, melhor não, más notícias de novo.” Naquele momento, tudo parecia tão bom. Como Narubb havia me acordado, segui viagem, apenas para andar mais algumas léguas, antes do pôr-do-sol.

O sol já se escondia entre as montanhas, a floresta já estava bastante escura. Narubb havia saído voando, para ver como estavam aquelas terras. Adentrei alguns passos para dentro da floresta, encontrei uma pequena clareira. Lá, recolhi alguns gravetos e acendi uma pequena fogueira. Narubb logo retornou com uma pequena lebre, o bastante para mim, fiquei muito agradecido. Ela logo sumiu novamente, deve ter ido buscar algo para ela comer. Como estava com saudades de Narubb, antes do seu retorno, foram muitos dias comendo frutas, algumas folhagens, mas nada muito apetitoso, tempos ruins, devo ter emagrecido bastante nesta época. Nestas horas, sentia muita saudade de casa. 

Lá, no alto das árvores, entre uma pequena abertura nas folhagens, eu pude ver o brilho das estrelas no céu, sentir o vento, ouvir o farfalhar das folhas... naquela noite me recordava da minha antiga vida, da tranqüilidade das colinas. Era um pensamento constante. ...Lembro quando eu subia na grande cerejeira, eu olhava as colinas distantes, muitas sumiam no horizonte, eu jamais desejei alcançá-las, mas lá estava eu, muito além de qualquer horizonte, muito além de qualquer colina.

Antes de dormir, resolvi abrir a mensagem de Telárius. O que eu achei que fosse uma decepção, uma má notícia, era na verdade uma belíssima poesia. Estava difícil para ler, pois estava muito escuro, aproximei a folha para perto da fogueira, mas foi uma péssima idéia. Quando me dei conta, o papel pegara fogo, perdi um pedaço da mensagem, mas uma bela poesia estava escrita. Jamais esquecerei tão belas palavras;
A Viagem para o horizonte

Jamais tema a solidão e a insegurança  
Jamais chore pela lembrança.
Rios, planícies, montanhas
Não tema, quando as coisas parecerem estranhas.
Confie nas asas da bela coruja
Olhe sempre para o céu
Fique esperto caso ela fuja.

Tenho certeza que estás no caminho certo
Perto da floresta, longe do grande deserto.
Atravesse as grandes árvores,
Siga em frente
Com muita sorte, pode encontrar algum ent.

Sua viagem se aproxima do fim,
Mas não se esqueça de me visitar
Estou esperando com bolo e uma xícara de chá
Entregue minha carta, quando meu amigo encontrar...

Na parte queimada, outras palavras haviam sido escritas, mas as perdi em meio às chamas. Era como se Telárius adivinhasse onde eu estava e como estava me sentindo. Depois de ler, adormeci, e sob as raízes de uma grande árvore, me perdi entre sonhos.

Uma noite tranqüila, sob os olhares da floresta, e talvez, de algum ent. No outro dia, logo cedo, continuaria minha viagem, seguindo pela borda da floresta. Muitas léguas me separavam do fim de Fangorn, mas agora, Narubb estava comigo e as palavras de Telárius me indicavam o caminho a seguir.

Continua...

Arthur Damaso

domingo, 8 de agosto de 2010

Menestréis - 6 e 7



Mirante dos Dragões


Desceu do barco e deitou na praia, chegara ao continente a tempo, os barris de água doce haviam acabado um dia antes. E no barco só encontrara cocos e castanhas para comer, dentro de sacos sujos. Desejou enxergar aquele céu, que todos diziam ser azul como o mar, mas um azul diferente. O Menestrel não sabia o que eram as cores, e não entendia quando lhe explicavam.

Levantou-se e seguiu para o sertão. Era aproximadamente meio dia, pela intensidade do Sol, mas talvez no continente tudo fosse diferente, não sabia. Estava em uma mata de coqueiros altos, e ouviu o som de um riacho. Foi correndo e cantarolando naquela direção.

- Rio brincando no rio e canto em qualquer canto.

Bebeu muita água e adiante encontrou algumas laranjas. Por todo o caminho, havia árvores com frutas cítricas. Ele se sentia feliz, sempre pulando e cantando. Após uma longa caminhada, tropeçou em um galho, e ralou os joelhos em algumas pedras, sangrou um pouco. Ele chorou como uma criança, rastejou por uns metros e ficou sentado por um tempo descansando.

Laranja boa e madura,
À toa na estrada,
Não é laranja qualquer:
Tem praga, ou está bichada.
Azar eu tenho, longe do meu lar
Vou me levantar e dar no pé...

As árvores começaram a ficar diferentes, mais barulhentas e com mais sombra. Estava fresco e era noite. O Menestrel estava com fome, mas se aconchegou na raiz de uma árvore que aparentava ser bem grande. As árvores não o assustaram com todo o alvoroço, ele gostava daquele som que parecia ser maligno, porque no fundo sabia que não era. Ouviu o uivar de animais, mas ficou quieto e dormiu. Estava perto de onde queria estar, mas não sabia disso.

Com o sol já quente, o Menestrel acordou e correu até o rio, queria tomar um banho, mas já havia perdido muito tempo. Ele caminhava rápido dando pulinhos alegres, e sabia que já estava perto do Mirante. Percebeu isso porque, seguindo o rio, ouviu o som de uma cachoeira que deveria ser muito alta, isso o fez gritar muito, de uma felicidade inexplicável. Ele estava molhado por causa do vapor e seu machucado no joelho ardia. Lá em cima estava o Mirante dos Dragões, de que tanto ouvira em histórias de Tílitris, que ele mesmo recontava. Não havia dragões no Mundo, mas o Menestrel acreditava que no passado eles existiram, e que moravam ali, onde ele estava agora. O Menestrel acreditava nas histórias de sua avó, que seu pai contava, sobre a possível existência uma passagem por uma gruta dentro da cachoeira, que era o caminho para embaixo do Mundo, e que lá ainda estariam os últimos dragões. Mas ele não entraria ali e precisava continuar a caminhada, escalando um grande paredão de pedras, ao lado da cachoeira.

No topo do Mirante e em cima da cachoeira que realmente deveria ser grande pelo tempo que demorou na escalada, o Menestrel imaginou como deveria ser saber o que tinha no horizonte. Ele tirou suas roupas e as torceu, as vestiu e sentiu falta de alguns guizos que ficavam dependurados em sua blusa. Estava calor, e andando ao vento, logo estava seco, foi seguindo o rio e sentiu fome. Tinha que segurar seu chapéu em forma de cone para que não voasse.

O Menestrel estava em uma busca que talvez seria impossível. Fugiu de Tílitris para escapar da morte e procurar por Feltris. Mas antes precisaria encontrar alguém.
~


Na Floresta Azul

Feltris, após ter sido isolado de Árane e de sua amiga Délane pelo bloqueio do Mandingueiro Búfalo, caiu em sombras e desencanto. Os tílitris estavam sem segurança, e foi quando o Alquimista apareceu. Era ambicioso, e ofereceu ajuda a Feltris naquele momento de tristeza. Mas o trapaceiro Alquimista preparou uma tocaia e o mandou para o exílio, que somente a Raposa Velha sabia onde ficava.

O Menestrel estava à procura da Raposa Velha, que vivia na Floresta Azul. Ele já estava na Floresta, mas não sabia. E cantava:

O canto tem rumo certo
Como o peito aberto esconde o grito.
Já não mais ficarei em mim
Para compor o recado da presença.

O Alquimista confiscou todos os bens dos tílitris, e os que se juntaram a ele tinham regalias, e faziam a cabeça do povo, dizendo que Feltris estava longe para cuidar de sua doença, e que o Alquimista era um homem que iria trazer a felicidade de volta a Tílitris. Mas isso não aconteceu. Os artistas e opositores foram perseguidos e enforcados. As pessoas, com medo, obedeciam fielmente ao Alquimista.

A mãe do Menestrel esculpia em madeira, e foi enforcada por retratar o sofrimento do povo e a saudade de Feltris em suas obras. O Menestrel se revoltou com isso e fez muitos poemas conta o Alquimista, numa tentativa de libertar a mente dos tílitris para que eles pudessem contestar o Alquimista e fazer alguma coisa para trazer Feltris de volta, se ainda estivesse vivo. O Alquimista prendeu o Menestrel e o condenou à guilhotina. Mas ele conseguiu fugir da prisão e escapar da ilha.

O Menestrel teve a ajuda de um falso aliado do Alquimista, que trabalhava na prisão. O homem disse que havia ouvido umas conversas do Alquimista, em que ele citava Feltris e uma tal Raposa Velha, que poderia estragar tudo porque eles não a encontraram.

O Menestrel comeu algumas ervas cheirosas, e se sentiu exausto, cheio de picadas de formigas e mosquitos. A noite estava chegando e ele se sentiu indefeso, no meio de uma floresta que parecia o guiar a caminhar em círculos.
~
Daniela Ortega

quarta-feira, 26 de maio de 2010

As aventuras de Balur, o hobbit andarilho - Parte IX


Uma Nova Esperança...



Meus pés ficaram pesados, cada passo parecia uma caminhada de muitas milhas. Estava cansado, minha visão se tornava confusa, como se um grande nevoeiro tivesse pairado sobre aquele lugar.

Minha única ação naquele momento, fora olhar para o céu e ver um vulto, parecia um pássaro... Mas não pude ver, desacordei. Meu sofrimento parecia ter acabado. Não sei que magia ou outra força oculta me ajudara naquele momento, mas meu fim não seria ali, nem daquela forma.

Era noite quando acordei, estava encostado em uma mochila. Não consegui ver onde estava, pois a escuridão era muito grande. Ao olhar mais a frente, percebi que havia uma fogueira e um homem sentado de costas para mim. Uma fumaça parecia sair de seu rosto, era difícil de saber, mas parecia ser um cachimbo... Era um cachimbo, o vento soprava contra mim, pude sentir o cheiro de uma boa erva sendo queimada. Ainda estava muito fraco, não consegui me levantar. Entre gemidos e esforços, o homem se virou e eu pude ver sua face.

Fiquei observando-o por algum tempo, mas o silêncio permaneceu por um breve período. Era preciso dizer alguma coisa, mas nada me veio à mente naquele momento. “O que aconteceu?”. Não foram sábias palavras, mas, foi o que consegui dizer, sem muito pensar. O homem se apresentou. Dizia se chamar Nórgand. Era um andarilho, talvez, até um dos guardiões do norte... Fiquei curioso para saber o que havia acontecido. Pedi-lhe para contar como havia me encontrado.

“Eu estava passando por estas terras, indo ao sul, até o reino de Gondor, para a cidade de Minas Tirith. Estava a mando do rei, seguindo um grupo de orcs, que tentavam atacar os Terrapardenses. Mas não consegui segui-los, em uma das noites, perdi totalmente o rastro deles. Foi quando avistei uma enorme ave se aproximar de algo, quando cheguei mais perto, era você. A enorme ave era uma coruja, muito bonita, tentei capturá-la, mas em vão. Ela voou para longe, além das montanhas, não deve mais incomodá-lo. Há dois dias viajo trazendo você comigo.”

Sim, a coruja com certeza era Narubb. “Pobre Narubb” - Pensei por um breve momento. - “Veio com alguma notícia ou estava tentando me ajudar”. Mas não disse nada à Nórgand. Restava saber onde eu estava. “Já que viajamos há dois dias, onde estamos?”. “Estamos bem próximos de Isengard.” Fora a melhor notícia dos últimos dias. Esperei que Narubb retornasse, mas eu sabia que, enquanto estivesse com Nórgand, ela hesitaria em se aproximar.

Depois de dois dias de viagem, chegamos à Isengard. Acampamos próximos da grande Torre de Orthanc, trancada naquela época. Fumamos nossos cachimbos e conversamos. Tudo mudara para mim, poderia ter morrido nas montanhas, mas não parecia ser meu destino. Dormi olhando as estrelas, elas pareciam mais brilhantes naquela noite.


Mais um dia da Quarta Era chegava. Logo de manhã, Nórgand seguiu para o sul, enquanto eu viajei para o norte, continuando aos pés das montanhas, mas com um horizonte bem diferente. Agradeci muito à Nórgand, ele me trouxe uma nova esperança, se não fosse por ele, não sei se Narubb poderia ter me ajudado. Por falar nela, fiquei esperando ansiosamente seu retorno, o que logo aconteceria.


Continua...

Arthur Damaso

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Menestréis - 4 e 5



O Horizonte Desconhecido

   Ao nascer do sol, já estavam no topo da Serra do Rio Forquilha. O Rio Forquilha tinha esse nome porque dele se bifurcavam outros rios, menores e sem nome, chamados de forquilhas, pelos áranes. A Serra era a única paisagem no horizonte que se via de Árane, algumas pessoas trabalhavam por ali.

   Era a primeira vez que olhavam para um horizonte além de Árane, e lá pararam para descansar e comer. Do topo da Serra dava para ver onde o Rio se dividia primeiramente em dois, e ia para muito longe, talvez para o mar, ou talvez, de tanto se ramificarem, as forquilhas acabassem em alguma terra seca. Viram muitos campos e pequenos morros, árvores e arbustos, e um grande lago cinzento no pé da Serra, Bardax enxergava com dificuldade.

   Bardax se contentou em mastigar algumas ervas por perto. Olívia comeu uma banana que havia levado, e encontrou frutinhas rasteiras, que tinham ali, achou que eram muito doces. Depois, vestiu um par de meias secas, descansaram um pouco, e desceram a Serra, com cuidado para não escorregarem em lugares muito íngremes. As árvores tortas os protegiam do sol, formando labirintos, e Olívia caminhava à frente de Bardax.

   Terminaram a descida, e chegaram ao lago cinzento. Bardax chegou perto e cheirou, mas não havia água, e sim argila. Olívia não sabia o que era argila, e se maravilhou com a textura e o frescor daquele barro diferente. Passou a argila por todo o seu corpo e pelo pêlo de Bardax, para se protegerem dos mosquitos e do sol.

   Olívia subiu em Bardax e eles seguiram em trote por algumas horas, em um vasto campo florido. Tudo acontecera tão rápido que ela ainda não havia parado para pensar. E começou a sentir certo arrependimento por estar indo para, sabe-se lá onde, e pensou em voltar. Mas não poderia voltar para aquela Árane infeliz, a decepção seria muito grande, ela tinha que tentar fazer algo, por aquelas pessoas sofridas. Não poderiam sucumbir em nome do Palácio de Baleth. Sentiu medo, mas um pouco de vontade também.

   Caminharam o restante do dia à beira da forquilha do Rio, paravam às vezes para breves lanches. Quando passaram pelos Buritis dos Tamanduás, viram muitos tamanduás diferentes, e Bardax não teve medo daqueles estranhos animais, que os fitavam com estranhamento. Olívia os achou muito belos, mas preferiu não se aproximar. Bardax estava preocupado, pois havia muito brejo, e se atolasse, Olívia não conseguiria ajudar. Os buritis ficaram para trás, e os curiosos animais também, estava anoitecendo.

   Com a visão distorcida e suando frio, Olívia sussurou:

   - Bardax, o que é aquilo?

   Viu uma grande tenda de lona listrada de amarelo e azul no meio da mata, à frente deles. Olívia desmaiou, e caiu de Bardax. O veneno mortal estava se manifestando. Bardax se desesperou, estava sozinho.
~

Os Ciganos

   Olívia acordou, estava em uma rede dourada, embaixo de uma árvore cheia de flores amarelas, era uma manhã fresca. Olhou para os lados e viu a grande tenda listrada, agora percebera como era bonita, diferente de tudo o que já havia visto, tudo ali era diferente e encantador. Viu também uma fogueira rodeada de panelinhas de cobre, muito brilhantes, e sentiu um aroma delicioso de comida, um tempero diferente, percebeu que estava faminta.

   Da tenda, saíram crianças brincando e correndo, e uma cigana ruiva veio até Olívia, que ficou impressionada com as roupas da mulher, e de todos que saíram da tenda atrás dela. Usavam roupas muito coloridas, as mulheres com blusas azuis bordadas em ouro, vestidos de uma linda cor púrpura, saias marrons longas e rodadas, moedinhas douradas faziam um barulho suave e agradável quando andavam. Deram comida para Olívia e falaram com ela

   - Meu nome é Olívia Dríniel, venho de Árane, e vou para Tílitris...

   A cigana ruiva a olhou com indiferença e disse:

   - Não sabemos onde ficam esses lugares. Viajamos pelas florestas e não nos metemos nos assuntos de outros povos. Mas falamos a mesma língua, significa que nossos ancestrais são os mesmos, e já é um bom motivo para a ajudarmos no que precisar, prossiga sua jornada quando quiser!, a cigana falava em nome de todos, e eles pareciam ser muito simpáticos e felizes.

   As mulheres eram baixas, mas o homens eram muito altos, e todos tinham tranças nos longos cabelos negros. Só aquela cigana era ruiva.

   Um homem se aproximou, tinha um rosto muito diferente, parecia ser nativo dos povos das florestas antigas. Tinha pinturas nos braços e as tranças dos cabelos eram enfeitadas com miçangas douradas.

   - Meu nome é Táreni, e esta é Dúna, minha esposa.

   O homem falou, acenando para a mulher ruiva.

   - Estamos indo para a nossa Tenda Magnífica, ao Sul. Lá está o nosso povo. Todos somos artistas, cada um com uma arte diferente, com fogo, fitas, água, ilusões, malabarismos e brincadeiras, instrumentos, voz, e todas as outras coisas que inventamos, disse Táreni.

   Olívia sentiu admiração por aquelas pessoas. Perguntou onde estava Bardax, e um rapaz disse que ele estava dormindo. Um rapaz, com apelido de Bobo da Corte, explicou à Olívia o que havia acontecido. As frutinhas doces eram venenosas e ela teria morrido se não tivesse sido tratada por eles, já estavam com os ciganos há uma semana, e só agora ela acordara. Ela agradeceu, e caiu no sono novamente.

   Acordou com as lambidas de Bardax, e ficou muito feliz em vê-lo. Era noite, ela se levantou da rede, um pouco fraca, mas feliz por estar ali e admirada com a beleza da música que estava ouvindo. Os ciganos estavam cantando e dançando, tocavam tambores e instrumentos que eles inventavam, feitos de conchas, madeira, pedras, ossos, cabaças, cobre e ouro. Era um som magnífico, Olívia desejou aprender a tocá-los e ficar ali para sempre.

   Todos estavam em festa, e Dúna convidou Olívia para dentro da tenda. Lá, havia várias outras tendas menores, todas listradas, coloridas de azul e amarelo ou vermelho e verde. Elas entraram em uma das tendas e a cigana pediu que Olívia sentasse, e disse:

   - Você quer permanecer conosco, mas não é uma de nós, e deve cumprir sua missão, seja ela qual for. Se quiser, fique e a ensinaremos nossa música e arte, mas a aconselho a seguir sua jornada amanhã.

   Não entendia como, mas Olívia sabia que a mulher tinha razão, e que era sincera. A cigana usava as palavras “missão” e “jornada”, como se soubesse de tudo. Mas não se interessava pelo o que Olívia falava.

   - Não entendo. Como a senhora pode saber tudo isso, sem saber nada sobre mim¿

   A cigana mostrou uma bola transparente que estava em cima da mesa, e disse que aquele objeto mostrava o que ela deveria saber. Mas Olívia não viu nada além da transparência do material, que parecia água congelada, mas não era gelo. Elas conversaram mais um pouco e foram lá para fora se juntar à festa.

   As coisas que os ciganos faziam eram muito belas e interessantes, e sua comida era deliciosa. Isso encantava Olívia e Bardax. Mas tinham que partir.

   - Bardax, durma e coma bastante, porque amanhã antes do nascer do sol, temos que continuar com o pé na estrada.

   Não havia estrada alguma, viajaram até agora pelo mato. Olívia se despediu de todos ao final da festa, e ganhou alguns presentes, como um instrumento musical pequeno de madeira com uns furinhos, um vestido de cigana colorido de lilás e marrom, uma panelinha de bronze e uma mochila confortável, pois o saco que ela levara estava se desintegrando, ficou úmido por muito tempo, na tempestade, quando saíram de Árane. Bobo da Corte a explicou o caminho para a Tenda Magnífica, e Dúna frisou o convite.

   - Se algum dia quiser aprender nossa arte, vá para a Tenda Magnífica, e será bem recebida pelo nosso povo.

   No outro dia, Olívia acordou bem cedo e saiu com Bardax, enquanto todos dormiam. Uma anciã estava preparando chá à beira da fogueira, elas tomaram o chá, Olívia agradeceu e foi embora em seu cavalo, sumindo em uma neblina branca e fria.

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Daniela Ortega

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Taverna do Bardo - Parte 4


A noite fora tranqüila para Alrosth. Dormira sob aquela pequena árvore, junto com seu novo amigo, o qual ainda não sabia o nome.
Amanhecera. O Sol ainda surgia no leste, foi quando Alrosth acordou, mas o menino ainda dormia. Ele olhou para o menino, viu que era melhor não acordá-lo. Ele não conseguiu ver que árvore era aquela, pois estava muito tarde quando ele se aproximou dela, mas de manhã ele observou que era um choupo, uma árvore que crescia nas terras que nascera.
Lembranças surgiram como estrelas no entardecer. Alrosth se lembrara da sua família, e porque estava naquela cidade. Rodd havia roubado sua cidade, e, Alrosth se incumbiu da tarefa de ir atrás deste homem. Era de certa forma uma tradição, em que filhos mais velhos tomavam conta de suas aldeias, mas Alrosth estava sozinha nessa empreitada. Ele se perdeu em meio aos pensamentos, estava fora de si, quando foi cutucado pelo menino.
― Venha logo! Estou te chamando há bastante tempo! ― esbravejou o menino. ― No que estava pensando?
― Não era nada. ― respondeu Alrosth, com um olhar triste. ― Apenas lembrei-me de algo quando vi que esta árvore é um choupo.
O menino ficou um tempo sem entender. Por que alguém ficaria parado pensando depois de ver uma árvore? Nada fazia sentido para ele.
― Vamos comer alguma coisa. ― disse o menino.
Alrosth estava com muita fome, mas ele continuava sem saber o nome daquele pobre menino. Não podia continuar assim, na sua aldeia todos tinham um nome, era sinal de respeito ao indivíduo chamá-lo pelo nome. Foi então que ele perguntou:
― A propósito. Qual é o seu nome? Creio que ainda não fomos apresentados.
Os dois se olharam por um breve momento. O menino parou para pensar. Até que Alrosth quebrou o silêncio.
― Meu nome é Alrosth. Venho das Terras do Leste, e você?
― Meu nome é... hum... deixe me pensar. É, acho que não tenho um.
― Você não tem um nome! ― Alrosth olhou com bastante surpresa para o garoto. ― Todos têm que ter um nome. Vou te dar um nome, pode ser?
― Claro! Desde que seja um nome bonito! ― havia brilho nos olhos do menino. ― Mas, ande logo, escolha um nome rápido!
― Acalme-se! Estou pensando...

Alrosth ficou imaginando qual nome dar à um pobre menino. No fundo ele tinha pena, mas sentia que podia ajudá-lo de alguma forma, mesmo que dando um simples nome, já seria muito para o menino. Foi quando Alrosth se lembrou de uma palavra de um antigo dialeto de seu povo.
― Qual é? Qual é? Diga logo!
― A partir de hoje você se chamará Héogan. Vem de uma língua antiga do meu povo, que significa “Aquele que vaga”. ― Alrosth olhou para o garoto e sorriu. ― Gostou?
― Nossa! Gostei muito! Mas agora, vamos comer alguma coisa.
Alrosth confiou em Héogan. Acreditou que ele realmente havia gostado do nome. Os dois seguiram por um longo corredor, este que levava para a praça central. A cidade estava ficando cheia. À medida que o sol subia, mercadores e viajantes chegavam à cidade. Alrosth se dirigiu para uma barraca de frutas, comprou algumas, entregou algumas para Héogan e, aproveitou para olhar os arredores, para tentar avistar algo suspeito, mas ele nada viu.
O dia estava lindo. Alrosth resolveu que tiraria o dia para conhecer melhor a cidade. Ele havia esquecido, mas agora ele era amigo de um grande guia, já que Héogan vivia nas ruas da cidade desde pequeno. Foi então que ele perguntou à Héogan:
― Tenho uma idéia. O que acha de me mostrar a cidade?
― Mas, como eu vou pedir dinheiro para os viajantes, se eu ficar o dia todo com você? ― perguntou Héogan um pouco cético.
― Isso não é problema! ― respondeu Alrosth. ― No fim do dia você será bem recompensado.
Os dois seguiram conversando em direção à uma outra rua, seguiram entre os corredores e ruas de pedra da cidade. Alrosth acabara se esquecendo das tristezas e lembranças que tivera da sua aldeia. Rodd seria encontrado, ele devolveria o que roubou, nisto Alrosth tinha plena confiança.

Continua...

Por Arthur, Alcy e Daniela